Como boa fã da série que sou, fui ver o sexto longa dessa que, pra mim, é um dos maiores fenômenos de venda de livros e que fez com que toda uma geração fosse aficcionada por leitura. Gosto de ver jovens tão ávidos assim por um livro… E esperemos que venham os Marotos por aí. Mas falemos do filme.
Baseado no livro de J.K. Rowlling, O Enígma do Principe tem todas as grandes partes do livro e consegue manter uma fluidez razoável, apesar de alguns momentos estranhos e outros personagens sem muita proposta. Estes acredita-se que sejam explicados e explorados nos próximos dois, que contarão o final da saga. Mesmo sabendo que não tenho um olhar tão isento assim, consigo superar certas frustrações e ver que o filme, dentro das possibilidades de tempo, foi bem construído. E tem um tom realmente mais melancólico, dramático e pesado.
Remoendo [não tanto assim] a morte do padrinho, Harry é mostrado lidando com a vida adolescente, no auge de seus 16 anos. Mas não é isso que impressiona. É o tom de cinza que a fotografia carrega, exceto talvez na cena (que eu senti falta do lema “Weasley is our King!”) do final do jogo de quadribol. A sala comunal da Grifinória tem sempre o tom vermelho e dourado de sua bandeira, mostrando que é ali que Harry se sente em casa, em paz e protegido, acima de tudo. O cinza e os tons de sépia, mesclados ao cinza predominam na fotografia, seja por escolha de cenário e figurino, seja por filtros nas lentes. Cinzento, sombrio, o filme mostra que há sempre uma ameaça à espreita.
A cena inicial é um espetáculo à parte. O símbolo da Warner, preso ao Fog habitual de Londres, mas que parece mais denso, quase sólido. Não há a clássica música tema, apenas um fundo incidental. Mostra o mundo dos trouxas sendo invadido por comensais. A ponte que se parte (apesar de não vermos nenhuma morte no filme) e o tom ainda mais cinzento no céu de Londres dão o tom da narrativa até o final. Pra não deprimir a audiência, temos a talvez mais brilhante atuação do Rupert Grint dentro da série. Ele conseguiu fazer com que Rony, neste filme, não fosse apenas um suporte ao Harry, mas teve destaque, fazendo momentos hilários e verdadeiros.
Aliás, a atuação do trio merece ser elogiada aqui. Emma Watson, apesar de sair de conselheira de Harry (e entre fãs haver uam suspeita de que a Warner gostaria de tornar os dois um casal), aparece nesse filme também quebrando um pouco da tensão, dando um ar mais humano aos problemas de Harry e aos seus próprios, menos “sabe-tudo” que no livro. Uma pena termos ficado sem a frase “Ronald, vc é o legume mais insensível que existe!” Radclif, de um garotinho estranho, passou a atuar. E bem. Falta alguma verdade em algumas das falas, mas ele funciona muito bem com o Richard Gambom (meio Gandalf o Dumbledore desse filme) e com os outros dois principais. Foi muito bom ver Alan Rickman aparecendo e mostrando pq é um dos melhores atores britânicos em atividade. Sensacional ver o seu Snape frio, calculista, mas com emoções perdidas. Alguns spoilers em suas atuações e interações com Gambom, mas funcionou muito bem na trama.
Alguns personagens ficam perdidos ou têm sua história trocada. O lobisomem que transformou Lupin não aparece como tal, e fica fazendo apenas figuração. Outro momento em que falta ação é no final, os acontecimentos na Torre do Castelo. Aparecem alguns personagens, que não são apresentados e que ficam lá de figurantes, sem muita serventia a história.
Perdemos o funeral de Dumbledore, mas esse filme consegue, bem, preparar os ânimos e funciona mesmo como uma abertura para a trilogia final de Harry Potter.