Tem um tempinho que eu queria escrever aqui no blog sobre meus últimos devaneios. Como acho que combina com o final do domingo, vai aqui minhas últimas ideias. Não tenho a menor pretensão de ser definitiva em nada. Mudar de ideia, crescer, ser alguém melhor, faz parte de todo aprendizado de vida. E eu tenho algumas provocações que queria discutir. Só para deixar mais um ponto claro, não estou aqui querendo ditar regras, mas suscitar a reflexão.

Essa é a Rosa, minha musa inspiradora. Nunca conversei com ela sobre o assunto, mas ver o quanto ela era (é!) bonita e como seu cabelo era lindo e crespo (essa coisa de afro me dá nervoso um pouco, pq me dá a mesma sensação da classificação “loira, morena e negra”, sabe? Sai da esfera do cabelo e vai para a pele, sei lá…) me deu coragem de mudar também. Mesmo antes de ler sobre o movimento natural, que está tomando conta das mulheres negras na Europa e vem chegando com força nos States (e por conseguinte no Brasil). Depois de muito pensar, e de chegar à conclusão de que o meu cabelo natural é sim um estatuto político, por que não existe nada mais nosso, nada que nos seja mais caro e, por tanto, mais bandeira de luta, que nosso próprio corpo. Nessa esteira, andei me perguntando uma outra coisa. Porque mudamos?
Temos aquela máxima de que precisamos mudar, trocar a cor dos cabelos, alisar, usar aplique, peruca, cachear… Costumo dizer que tudo bem, se a pessoa está feliz. Mas começo a questionar de onde vem essa felicidade. Preciso mesmo usar o cabelo loiro? Preciso alisar, preciso ser parecida com uma outra? Pq sim, por mais que não haja nenhuma intenção, além da mudança ou de entrar na moda, de onde vem essa necessidade de seguir uma tendência? Que nem foi designada para nós? Foi pensada para mulheres brancas, com cabelo caucasiano. Outra coisa é aquela ideia de estilo. Tem o estilo pin up, estilo chanel clássico, surfistinha de praia, moderninha do cabelo repicado… já notaram que tudo isso é com cabelo liso? Aí se eu quiser imitar tenho que alisar né? Por que é que temos essa coisa de achar que só podemos usar uma roupa ou sapato se tivermos a imagem da mulher que a desfila (branca, lisa, caucasiana)? Ou será que são mesmo pacotes, que tem tudo incluso?
E desculpa, mas sinto preguiça de quem me diz que alisa/relaxa pq o cabelo crespo dá mais trabalho. Se o seu emprego não permite, acho que está na hora de se impor. Sim, impor. Ou será que só eu vejo o quanto é surreal um aspecto seu não ser tolerado no seu emprego? Não estou sendo hipócrita não. Sei o quanto é difícil conseguir um emprego e como é difícil ter que lidar com o preconceito. Mas não cabe a nós abaixar a cabeça. Nem dentro de casa. Nem no trabalho, nem em lugar nenhum. E além disso, acho que nunca tive tão pouco trabalho na vida quanto agora, nada de salão, nada de horas sentadas, nem reconstruções, cauterizações… Só hidrato, lavo duas vezes na semana. E é isso. Só precisa saber cuidar do cabelo, pessoal.
O movimento natural me fez pensar nessas coisas. Como tudo precisa, ou não, ser relativizado, me pergunto até onde as mudanças são necessárias nesse mundo globalizado e até que ponto estamos influenciados por um padrão midiático. Não estou com isso dizendo que voltaremos a viver em tribos, é impensável retroceder. Mas cuidado, também, para as desculpas que nos damos não serem apenas máscaras. Isso ainda não impede que eu clareie o cabelo por achar que fico mais nova assim. No entanto não me impede de enxergar que estou, como tantas, sucumbindo ao pavor que essa nossa sociedade espetacularizada tem do envelhecimento…
Enfim, é de se pensar.